Milícias piratas: a distribuição de Tropa de Elite 1

Tem duas coisas fora do cinema que me marcaram em Tropa de Elite. No II, foi a invasão do Alemão logo depois do lançamento do filme em novembro de 2010. Parecia que era o Tropa de Elite III, agora em 3D e com realidade aumentada. Era o trailer do início das UPPs, do sucesso do caveirão e da ascensão do BOPE, mesmo que a leitura do filme apontasse para o que estamos passando hoje: mídias sensacionalistas, políticos envolvidos com a milícia e demagogia diante os microfones (seja da TV ou mesmo, do celular).

Nove anos depois, a maioria dos cariocas sentem mais medo da milícia do que do tráfico. E nesse conta ainda falta o receio da polícia, separada na pesquisa. No final tem o link.

O primeiro filme demorei pra ver. Lembro que estava sozinho em casa e foi bem difícil assistir. Certo pânico pela exaltação de um estado de violência que realmente excita a quem está acostumado a apreciar uma Tela Quente como momento cultural da semana. Porém o que me chamou a atenção e que está longe de ser do filme em si, foi sua distribuição. Hoje, ninguém fala quase nada sobre o “sucesso” de Tropa de Elite I. Antes do lançamento oficial no cinema todo mundo já tinha visto. E foi um fenômeno de massas na época do DVD. Em cada esquina tinha alguém vendendo o disco com uma versão pirata do filme. Ele foi vendido na feira de Acari e no Leblon. Fez muita gente ver cinema nacional sem continuar a ir ao cinema. Houve uma tentativa de reação da produção, mas deram um jeito de prometer uma fita com novos cortes – o que nem sei se aconteceu. Não duvido que esse episódio também tenha servido como exemplo para o aumento da repressão à pirataria.

Em 2019, ao ver o quanto a milícia e as ideias contra os Direitos Humanos se tornaram corriqueiras no Rio, não é impossível pensar que aquela distribuição intensa não tenha sido um golpe de marketing só para o filme e pro Padilha que depois foi dirigir em Hollywood. A intensa distribuição a preços populares produziu um pensamento muito favorável aos que desejavam crescer junto com o pânico moral da sociedade. Introjetaram no seio da cultura popular o glamour da morte e do autoritarismo. É só lembrar das frases emblemáticas do filme. São na sua maioria opressoras dentro de um padrão de desafio/esculacho machista escroto competitivo. O exemplo mor e com muito sentidos é o famoso “senta o dedo”. Incentiva a morte ou o estupro? A música do Tihuana também empolga e dá mais brilho para o terror. Cria um ar swingado e musical pra movimentação da tropa.

Isso sim é marxismo cultural, porra!

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É racismo? É racismo! E também um problema de classe.

Demorei um pouco para entender o porquê do ato ser no Extra. E quando descobri, fiquei bem feliz. O Rodrigo Guéron me deu uma acordada a mais agorinha há pouco e me mostrou o que meu pensamento de privilegiado não tinha tonificado um fim de semana. É pra pensar a coisa com uma revolta danada, mas além do ataque, o próprio atacante tb deve ser ‘destrinchado’ e visto prá lá do contexto dual com o campo bolsonarista. Ali, temos um trabalhador precarizado também em linchamento. Tá fácil sentir raiva dele. Qual posicionamento devemos ter em relação à empresa de segurança que muitas vezes é fachada pra outras coisas? Do próprio Extra e das condições dadas aos seus funcionários? Quanto vale a vigilância de corpos negros em suas dependências, cotidianamente? Seu presidente é um dos homens mais ricos do país. Dono do grupo Pão de Açúcar y outas cozitas más. Apoiou o presidente.

Para o sistema autoritário é bom que deixem de perceber que o recorte é raça-e-classe. Ali, em duelo está o jovem negro e o também jovem branco das camadas populares, adepto de uma violência de grupo para se afirmar diante às negativas da vida. Ambos precarizados por algo que tem mais ligação com à violência social me falta de saúde, educação e assistência públicas do que tudo. Ou seja, uma batalha entre o último e o penúltimo e não entre os últimos e os que os colocam nessa situação (de uma vida precária e ameaçada pelo racismo institucional que vigia e mata os corpos negros).

Acho mesmo que a revolta tem que ser com o Extra e não com o cara, exatamente. A ele, serve o exemplo para o combate a uma tal ‘ideologia da morte’ que mira corpos pretos e pardos, recrutada entre uma juventude popular e precarizada, que muitas vezes é negra também, mas compreende parte do recorte de brancos. Porém, pobres e de camadas menos abastadas da mesma forma. Eles matam para seus patrões que matam para seus patrões. Em nome do quê nem têm ideia, mas é de sua própria escravidão. Da nossa.