Bio

Tenho um problema com fotos. Nunca gosto de estar nelas. Ou quase nunca. A pose e a sua vaidade sempre me fizeram pensar na artificialidade da coisa. Por isso, tenho muita dificuldade com selfies. Evito fazê-los e já devo ter feito umas duas ou três mais selfies do que o número de publicações dessas. Mas sempre que sou personagem em uma fotografia do passado, dessas que ressurgem de vez em quando nas redes e #TBTs da vida, acabo refletindo o quanto havia sido duro com a minha autoimagem. E isso é um sul pra mim. A fotografia é um caminho que vem, como um joguinho de Atari, ela nunca é estática e sempre pode transformar o seu olhar se você parar para prestar atenção nos movimentos, nas camadas, na luz e em variáveis interessantes que vão para o social, o artístico e o espiritual. Uma imagem é um universo a parte e isso é maravilhoso. Gosto de compartilhar isso com as pessoas.

Antes de pensar na fotografia, passei alguns bons anos criando cenas na rua. Stencil e outras pequenas intervenções me levaram a dar oficinas e até fui professor em faculdades de Juiz de Fora. Na época, viajei para Rio, São Paulo e até Buenos Aires para dar prosseguimento às intervenções. Acabei conhecendo o Zico por causa disso, em 2012. Atualmente, a escrita acaba também tendo que dividir espaço com a arte digital, principalmente, de comunicação militante. E ao fazer o stencil em muros e mobiliários urbanos, acabei me interessando por catalogá-los, fotografando-os. Com o tempo, deixou de ser apenas as ações de guerrilha que me (re)encantava na cidade. Um mundo inteiro de padrões como em Buenos Aires e de céus rasgados por prédios e preenchidos por antenas.

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Vidigal, Rio de Janeiro – 2012

Já sobre fotografar o mundo, acho uma das realizações mais louváveis ao espírito. Poder interagir com o mundo pela lente e pela ilusão da imagem eterna, é um privilégio que passei a ter como terapia a partir de 2012 em São Paulo. Antes, já havia tido oportunidades de montar exposições, fazer registros para artistas, em eventos de música e também apareceram alguns insigths da importância do fotografar em meu caminho. Lembro que em 2006, ano em que minha filha Julieta nasceria, saí pela cidade com uma maquina analógica Cannon, com um filmeco de 12 poses. As fotos ficaram estranhas até mesmo pela qualidade do rolo, mas dali já teria um nortezinho para o além. Em 2009 ou 2010 fui surpreendido ao ser colocado como professor de fotografia em uma faculdade particular. Não tinha conhecimentos técnicos para ensinar ninguém. Minha sorte era de que o sucateamento da instituição também não permitia muita coisa prática. Assim, acabei tendo que estudar a filosofia da fotografia, sua interpretação semiótica e uso na sociedade contemporânea. Dei aulas sobre leitura e classificação de imagens, acabei com isso aprendendo tanto a técnica, quanto a história e os usos da fotografia.

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Nova Viçosa, Bahia – 2016/7

A fotografia sempre apareceu e desapareceu na minha vida. Tem hora que a sinto como a respiração, mas ela vai se esvaindo e tem hora que esqueço completamente a sua possibilidade. Geralmente, são épocas que duram meses (vejo isso quando olho pro meu Instagram @jotapedeoliveira) e são angustiantes e bem pragmáticas. São que são até necessárias, mas não precisam ser tão fechadas ao fotografar. Sei que sou eu mesmo quem tem que colocá-la em prática, com ou sem propósito. Há tanto certa facilidade para querer quando a coisa está em alta. Porém, há uma indiferença diante do que isso dará no final. Acho que isso foi construído lá atrás e traz desafios. Meu pai tinha comprado uma Polaroid no início dos anos 1980 e com isso, havia bastante fotos de antes e depois do meu nascimento. Já mais velho, a primeira vez que fui fotografar com a instantânea acabei cortando a cabeça das pessoas na foto. Tinha uns nove anos e lembro de ter ficado um pouco indignado com meu pai me desqualificando como se eu fosse um rival de sala de aula. Acho que naquele desgosto profundo senti que teria que pensar no ângulo em uma próxima foto e isso durou muito tempo como questão. Às vezes, fotografar é a maneira que tenho para contribuir cotidianamente com o caminho do mundo, nosso dharma coletivo.

de Oliveira

jp@joaopaulodeoliveira.com
+ 55 21 97132 1982
@jotapedeoliveira

Deriva Troyka b

Juiz de Fora, Minas Gerais – 2018

MiniBio: jornalista, fotógrafo e mestre em ciências sociais. Foi coordenador de comunicação da Orquestra Sinfônica Brasileira entre 2013 e 2017, ano em que lançou o livro “Kerouac Versus“. Desde 2008 cria, produz e realiza ações e projetos de intervenção urbana, engajamento digital e de artivismo. Fez parte do coletivo Epinefrina (2010); é um dos fundadores da Casa Absurda (2012) e atualmente, participa da Troyka Koletiva (2016) e edita desde 2011 o blog Amálgama Cultural. Fez parte da coordenação geral e da comunicação do programa-movimento Se a Cidade Fosse Nossa (2016).

Comunicação, arte e política

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“1917” – spray s/ parede; stencil – Juiz de Fora, 2008