O que farão os cagões?

No palácio da justissa, em uma tarde do final de maio:

– Vai vazar…
– Tô, ligado. Mas já tenho um plano.
– Sério? O senhor é demais.

Dia 9 de junho, o The Intercept Brasil divulga mensagens do aplicativo Telegram em que o chefe da força tarefa lava-jato explicita a submissão ao então juiz do caso. Além disso, as conversas apontam para a interferência do meritíssimo na coleta de provas e em favor da acusação. Atual ministro, o ex-juiz é convocado para se explicar no senado federal. O filho do presidente, este mesmo que vem sendo acusado de um esquema de laranjas na assembleia do Rio, afirmou ao microfone que o site teria contratado um hacker russo para invadir o celular de autoridades brasileiras.

Horas antes:

– Não dormi ainda.
– Muita tensão, né?
– Não sei. Já estamos em contato com os caras. Me pediram um mês mais ou menos. A PF já está agindo.
– Que bom.

No depoimento no senado, o ex-juiz já dando a letra, afirmou:

– A conduta dos grupos criminosos de hackers, a meu ver um grupo organizado, está invadindo esses aparelhos (..), a PF está fazendo a investigação.

No dia seguinte, satisfeito com a própria conduta, esbanja confiança:

– Olha, acho que vai dar tudo certo.
– Também acho. Já estão caminhando as coisas?
– Já. Começamos antes de ontem. O P. deu início à operação. Saca lá.
– O alvo é aquele mesmo?
– Sim, olha lá!

– Nossa, rsrs. Começou mesmo!

Ele continua negando e a citar hackers como autores do “crime”. Depois de uma melancólica vitória brasileira na Copa América, o ex-juiz pede licença e viaja… para o Estados Unidos:

– Tô indo amanhã.
– Vai mesmo?
– Vou. Mas por Viracopos.
– Ninguém vai nem perceber. Genial!
– Lá, acerto o final do plano e quando voltar, tudo resolvido.

Um mês se passa desde as primeiras divulgações e muitas mensagens ainda mais comprometedoras da imparcialidade de quem lida com a justiça comprometem o próprio uso do direito pelo ex-juiz. Outros casos são lembrados em que o abuso acabaram por anular suas decisões. Ao mesmo tempo, de forma mais ou menos orquestrada, alguns figurões da política começam a dizer que seus celulares estão sendo invadidos. Ministro da economia, parlamentar da extrema direita, até jornalista.

Assim, uma nova semana tem início e com ela vem a prisão de 4 hackers de São Paulo. Teriam sido eles os autores do hackeamento e posterior envio das informações reveladas para o site The Intercept Brasil. A polícia federal apresenta provas em um power point com imagens de um desktop de windows – sistema pouquíssimo utilizado para o hackeamento de informações, em que várias pastas com nomes de políticos, jornalistas e delegados estão listados. Segundo o responsável pela investigação, eram mais de 1000 números.

– Então, a gente vai dizer que eles são estelionatários. Consegui três com ficha e passado que incrimina.
– Tô vendo aqui. Esse lance do “Vermelho” ficou muito bom.
– Achei arriscado. Mas enfim, a raiva vai falar sobre a razão mais uma vez… rsrsrs
– Tomara.

Algumas coisas são descobertas sobre os supostos hackers: “Vermelho” é filiado ao DEM – talvez não tenham feito essa consulta. Além disso, um dos indícios de que o esquema seria político é de o mesmo voltou ao Twitter depois de um longo período. E nesse retorno, suas mensagens teriam agora teor político e em, desfavor do ex-juiz. Ele, o hacker de Araraquara.

Entretanto, mais uma vez não contavam com o rastro deixado no exterior da rede. As mensagens que retornaram em 15 de julho, um dia antes do depoimento no senado, não foram feitas de Araraquara, mas sim, de Brasília. Ou seja, ou o “Vermelho” estava mais perto do ministro que ele poderia desconfiar ou a sua conta do Twitter havia sido hackeada em favor da contra-informação que estava sendo montada para abafar o caso.

– Não acha que estão sendo muito literais? Meus amigos que são a favor estão começando a ficar incrédulos com a história do Vermelho.
– Tenho um trunfo.
– Sempre!
– É. Conseguimos os dados de muita gente.
– Vi no PPT. Presidente, Maia etc. O que vai fazer?
– Vou queimar as provas. De todo mundo.
– Como assim?
– Já liguei pro delegado. Falei que até as dele estão no meio. Não vai querer que revelem. Estou agorinha falando com o resto do pessoal. Eles são cagões, vão apoiar.
– Tomara!

Um furo de reportagem revela a intensão do ministro e ex-juiz. O judiciário, inclusive o STF e a OAB se colocam indignados com a intenção. Afinal, ele não é mais juiz, não julga o caso e muito menos poderia ter acesso a documentos da polícia federal dessa forma. A pressão aumenta, mas enquanto isso, seus tentáculos continuam a se mexer:

– Viu a portaria?
– Qual?
– A 666.
– Sério?
– Rs. Sim!
– Tá onde?
– Aqui: http://pesquisa.in.gov.br/imprensa/jsp/visualiza/index.jsp?data=26/07/2019&jornal=515&pagina=166&totalArquivos=225
– Não entendi.
– Verdevaldo…
– Sério?
– Ôooo…
– Que mente, que mente!

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