Glauber Rocha e a maldade do Dragão

– Atenção, ele tá chegando. Tirem do bolso.
– Muita gente?
– Umas 20. Como tá o salão?
– 242. Não tá tão lotado, mas vai fazer estrago.
– Abrindo a porta… podem dar REC
– Uhhhhhhh! Uhhhh! Lula tá preso, babaca!
– Posta! Posta! Posta!
– Manda fotos pelo zap.
– Foi.
– Ok. Porra, curti a segunda. Vai ela então. Mas me manda vídeo também.
– Tá. Tá rolando ainda. Foi gravar alguma coisa aqui.

O que parecia ser uma conquista do povo baiano, se tornou uma disputa política pela inauguração de um aeroporto em transe. O GRO, novo pouso de Vitória da Conquista, fora obra dos governos passados e nada tem a ver com o recente. Lula, Dilma e até Temer participaram de etapas de projeto e construção, mas pela idiossincrasia própria do momento será Bolsonaro quem inaugura o aeroporto na Bahia. A sigla é a abreviatura de Glauber Rocha, cineasta baiano, que empresta o nome para o empreendimento público no interior do estado. Um santo dragão revolucionário ameaçado pela violenta viralatice sustentada pela elite mesmo quase quarenta anos depois de sua morte (1939 – 1981) enfrenta novamente a maldade do dragão. Glauber é concreto, o presidente é uma ideia do celular:

– Como tá aí?
– Começaram aos poucos. Fala pra apressar. Não dou 1 minuto.
– Tá indo.
– Vem! Acelerou, porra…
– Entrando…
– Mito! Mito! Mito!

Como é uma obra federal sobretudo, o cerimonial ficou por conta do governo Bolsonaro. Depois de uma negociação intensa, em que os baianos reivindicavam uma mediação,  o golpe veio e dos 600 convidados, o governo da Bahia poderia levar 100. O detalhe é que tanto Rui Costa, quanto o próprio governador anterior, Jaques Wagner, também do PT, insistiram e abriram os cofres para a criação do aeroporto.

O problema ao certo nem era somente a desproporção no número. Mas o que isso poderia causar literalmente, na materialidade. Sendo do partido dos Trabalhadores e chegando em um local com 4/5 de convidados bolsonaristas, nesse exato momento em que a tensão com o nordeste se acentua, qual seria a receptividade para o governador? Rui Costa comunicou que não vai participar do circo. Não vai embarcar nessa furada certeira e óbvia. Correria o risco de ser vítima da vingança dos hipócritas sobre o nordeste. O governador seria boi de piranha para Jair jantar e mostrar sua força e seus dentes justamente na Paraíba, um país inteiro muito diferente do que o desejado por Bolsonaro: rico, plural e alegre.  Será uma tentativa em vão. Força de pirro.

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