Nossa civilização está se matando por muito pouco

Fico muito preocupado com o grau de parcialidade que uma aliança entre governo, mídia hegemônica e judiciário pode gerar (ou já gerou e estamos já vivendo a rebordosa). Para completar, o chefe do legislativo é bicho da segunda ordem e protege a terceira do primeiro. Quer ser presidente e se mostra um liberal-social que se preocupa com o pobre. Chora, mas lava as mãos para a sangria que o executivo faz no lombo do povo, principalmente da trabalhadora e do trabalhador periférica, negra e mãe. São essas que perdem seus filhos para um discurso que apresenta preto e favelado como carta descartada no Brasil – até que se prove que berimbau (guarda-chuva) não é gaita (fuzil), o corpo já está debaixo da terra no Catumbi. Parece que estão a todo custo tentando enviar o podre pra debaixo do tapete (ou da terra) e nos forçam a evitar crer que a realidade os cobrará um dia por tanta miséria que espalham no mundo.

Os liberais-conservadores conseguiram o golpe, mas “perderam” as eleições para os conservadores-liberais. Será que estão surdos e vendidos (em ambos sentidos) e por isso se fazem de sonsos? Ou têm culpa do que aconteceu e se sentem fracos diante às armas que os vencedores apresentam? O que acarretará a omissão diante fatos tão instigantes e que confirmam a contradição?

Tenho um pouco de medo – R e a l – de um fechamento abrupto do regime por conta desse acordo-covardia. Mas como isso se daria de fato na materialidade da vida? Como convencer que o que tem sido revelado é um plano de contragolpe e todos devamos aceitar que um hacker roubou e adulterou conversa entre VÁRIAS pessoas? A imprensa (que a cada dia cresce em volume de entidades colaboradoras da investigação, menos a TV Globo) no caso Morogate, vai se vender e se calar caso haja um “dá ou desce” desse conluio machista que estupra e tortura? Como proteger a opinião pública, a instituição imprensa livre, o jornalista que rema contra a maré? Estão envolvidos nesse drama trágico:

A) A massa – aqueles que sofrem as consequências na inércia dos acontecimentos (todos nós);

B) A ferramenta revolucionária (e contrarrevolucionária, lógico) que impulsiona a opinião geral, ou seja, a imprensa e a comunicação social;

C) O sujeito incomodado/acomodado, visionário/cego e cheio de limitações, o qual ao menos um dia na vida todos nós fomos.

Ano passado, em algumas manifestações e comícios no centro do Rio, cheguei a me tornar muito potente e apesar da dor profunda com a perda real de Marielle, enchi meu espírito com a esperança de que somos muitas e muitos. Isso me fez entender que há uma pressão do lado de cá que é real, material. E cheguei a conclusão de que o convencimento midiático e institucional não seria suficiente para dobrar tanta pessoa que deseja um outro mundo sem essas disputas que apenas nos levam à extinção.

Das espécies, somos aquela que se reconhece racional, mas pelo número de assassinatos de nós por nós mesmos, pelo quanto de ódio por nós mesmos expelimos por dedos e dentes, fico pensando se há mesmo tanta razão na gente. Até acho que é essa a chave – somos irracionais e (esses caras aí) descobriram isso. Assim, eles querem trancafiar a razão de até então (que não se sabia razão) para ter qualquer (des)razão que justifique suas propostas totalitárias: mais armas que matam = mais vida (discurso de deputado em redes sociais). Mais empresas explorando a Amazônia = menos problemas ambientais (melhor do que na época do pê tê). Mais silêncio sobre a realidade = mais verdade para o mundo (terra é plana). Não importam mais os fatos, o iluminismo morreu. A pergunta é: nem mesmo a ciência política sobreviverá? A filosofia vai morrer nas pessoas? Vamos parar de ser poetas e resistentes?

Talvez tenhamos que retroagir (num sentido de “retroceder” para a razão ocidental) para a oralidade, mas não creio que a análise crítica do mundo se perderá nesse lampejo esquizo-boçal pelo qual passamos e passaremos. Talvez seja preciso escolher reconhecê-lo a ficar ignorante. E se vislumbrar o caixote que tá vindo, preparar o corpo para pegar o jacaré ou furar a onda. Eu também estou nesse mar. Você e o sujeito que reduz tudo a uma manifestação de apoio/repúdio idem. É tudo imanente, estamos todos envolvidos, somos todos responsáveis e do “grupo de risco”. Se não encontrarmos uma forma de entendimento que nos apresente de forma mútua, com volume suficiente para barrar a covardia, continuaremos a cavar túneis sozinhos e assim, nos tornaremos presas fácies das dificuldades que a própria vida apresenta e daquelas que nós mesmos criaremos individualmente e em conjunto. Portanto, vítimas egas e desprotegidas da política dos que estão lá em cima. Dentro das nossas próprias inseguranças e culpas está a incapacidade de reagir de forma global diante da situação que nos apresenta.

P.s.: “nossa civilização” é “A civilização”. Não há outra. Somos nós, o conjunto de todos que existiram, existem e existirão juntos e separados.

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